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19 de nov de 2010

Confissão


Tenho que confessar, eu preciso confessar!

Eu não sou organizada, sabe.

No meu primeiro emprego eu trabalhava no departamento de estoque de uma loja de calçados femininos.

Tenho que confessar que cometo o pecado da luxúria, sempre, também.

Eu estava lá no meio daquele monte de sapatos, cada um mais lindo que o outro. Não resistia e passava o dia experimentando. Tinha um espelho lá, o que era ótimo, porque eu podia ver como o sapato ficava no meu pé. Não via problema nenhum nisso, porque eu não usava. Eu não pegava o sapato, colocava na minha bolsa, saia e usava e depois devolvia. Isso é antiético.

Mas encrencaram, porque, quando os vendedores subiam lá no estoque e pegavam seis caixas de sapato para a cliente experimentar, bem, em algumas dessas caixas os sapatos estava trocados.

Não é que eu não ligo para detalhes. Sou detalhista, quando preciso ser. Quando fui registrar meu filho, prestei muita atenção no detalhe da data de nascimento e no detalhe do nome que ele teria. São detalhes importantes!

Mas prestar atenção em todos os detalhes é muito chato. As pessoas ficam se prendendo nos detalhes e perdem a vida, que é muito grande. 

O bonito da vida é ver ela como um todo, não é?

Acho que o gerente gostava mais dos detestáveis detalhes, porque ele me demitiu da loja só porque alguns sapatos estavam em caixas erradas, acredita?!

Mas aí tenho que confessar que não tenho amor próprio também. 

Ah, não vou ser hipócrita e dizer que se eu me amar o mundo todo vai me amar. Lorota! Eu posso me amar muito e ninguém mais gostar de mim, assim como um monte de gente pode gostar de mim, mesmo que eu não me ame muito.

Eu implorei. Confesso que implorei pelo emprego.

Não porque eu queria ser estoquista pro resto da vida, mas era agradável passar o dia experimentando sapatos. Coisas de mulher, sei lá.

O que isso tem a ver?

Tem a ver que eu estou procurando um pai para o meu filho seguindo meus critérios, que são: total falta de organização e planejamento, desapego aos detalhes e falta de amor próprio.
To mesmo pretendendo experimentar alguns, por ai, sem me prender nos detalhes...

Ah, eu fiz uma lista!

Pra ser candidato a pai do meu filho:
- tem que ter dente na boca;
- tem que ter... tem que... tem que ser homem.

Conheci o Johny na balada, sabe.

Era um barzinho de Streep masculino e feminino, mas eu fui com a intenção de encontrar um homem sério para minha vida. 

Vi que foi amor à primeira vista quando ele olhou pra mim e piscou. Senti que fomos feitos um pro outro naquele momento. Era o destino batendo na minha porta, quer dizer, na porta da balada.

Se foi amor a primeira vista e se ele chegou em mim e a gente deu uns beijos, ora, ele era forte candidato para ser pai do Felipe.
Ficamos juntos o tempo todo, conversamos muito, beijamos muito. Ele me chamou pra um lugar mais calmo (motel, né), mas eu queria mostrar que era mulher para casar e disse que não.
Se a gente quer casar com o homem da nossa vida não pode dar na primeira noite. Isso todo mundo sabe. Mulher tem que saber falar não, viu.

Mas aí aconteceu uma coisa muito estranha...

Eu fui no banheiro e quando voltei o Johny estava grudado com outra menina. Parecia que estava fazendo um exame de amígdalas, horrível!

Caramba, que frustração foi aquilo!

Ele seria o pai perfeito para o meu Lipe, entende? Voltei para o banheiro correndo, para chorar. 

Acho que passaram uns quinze minutos, sei lá, mas ai eu me enchi de coragem e fui lá tirar satisfação com o cafajeste.

Cheguei e disse:
- Cargo para pai vago de novo! – ele me olhou fingindo que não estava entendendo nada, aquele cínico.

Rodopiei no meu salto e pensei o seguinte: Bom, cargo vago? De volta à caça!


2 comentários:

  1. A Luiza minha filha ainda tem 9 meses, não cheguei nesta fase de conhecer outros caras com ela mas acho que vai ser muito estranho!!! rs

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  2. Adorei!! Cargo vago!! Aqui também ta vago, ha mais de 2 anos, mas sem nenhuma tentativa de preenchimento.

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