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24 de nov de 2010

Trânsito

Era um dia comum – ou melhor, uma noite comum – e eu voltava da faculdade, como sempre, isolada do mundo.

Vou e volto de carro, por isso, ás vezes, me sinto solitária. É bem estranha a sensação, sabe. Estou lá no meu carro, cantando como louca, dirigindo idem e, de repente, percebo que estou só, em minha insanidade. Vez ou outra um motorista parado ao lado olha na direção do meu carro e quando vê que a motorista vizinha parece estar recebendo algum espírito, ri. É boa a sensação de provocar o riso em alguém tão isolado quanto eu. Sinto que estou em um mar de carros, embora trancada dentro do meu submarino particular.

Nessa noite comum sentia-me assim quando o vizinho que me acompanhava no farol vermelho olhou, riu e continuou olhando. Eu olhei de volta, ele olhou de volta, nos olhamos, sorrisinhos aqui e ali e pronto!
Ele e seu carro foram meus companheiros de percurso, com direito a buzinadas e piscadas de faróis – incluam-se tentativas tresloucadas de fazer com que eu parasse o meu carro no meio do trânsito.

Sou louca, mas tenho um filho para criar!

Depois de uma hora de perseguição, troca de olhares e muitos risos, sentia que eu e o estranho do carro ao lado havíamos estabelecido um relacionamento. Mesmo dentro do meu submarino, não me sentia mais isolada.

Paro ou não?
Por que não?
Parei!

Já disse que tenho um filho para criar? 

Pois é, parei o carro em frente à delegacia de policia. Se o estranho simpático fosse um psicopata ou sociopata não teria a audácia de me atacar em frente ao local onde poderia passar boa parte da sua vida, caso o fizesse.

Não sai do carro. Deixei o motor ligado. Esperei.

Ele saiu do carro dele e veio em direção ao meu. Parou na janela e conversamos futilidades por cerca de dez minutos.

Moço simpático.
Eu havia decidido relevar a aparência. Afinal, ela não é tudo mesmo. Para o Vinícius é fundamental, mas também ele “tava podendo”. Se estivesse na minha situação, certamente não teria escrito isso.

Logo tive o insight: Encontrei o futuro pai do meu filho!!!

Trocamos celulares (fixo, nem pensar) e por um mês ele foi presença constante na minha lista de chamadas perdidas – sempre perco as ligações de celular – e algumas atendidas.
Marcamos encontros que não aconteceram e eu já estava desencanando quando, num outro dia comum, quem é meu vizinho de farol vermelho?

Dessa vez desci do carro – para o moço simpático reparar que eu tinha as duas pernas e respectivos pés – e a conversa durou bem mais que dez minutos.

Devo dizer que, sinto-me na obrigação, ele tentou me beijar algumas vezes.
Eu sou moça para casar, você deve saber. Não vou beijar um rapaz que conheci no trânsito, mesmo que nosso relacionamento já dure um mês. 

Beijo na boca só depois de uns dois meses, nos quais deve haver encontros semanais que garantam o comprometimento de ambas as partes no que diz respeito ao relacionamento comum.

Estávamos marcando uma balada para o final de semana seguinte, quando olhei para o relógio e notei que já era bem tarde e que meu filho já deveria estar sentindo minha ausência.
Compartilhei minha angústia com o moço simpático, pois ele era forte candidato ao posto de pai. 

- Você tem um filho?

Deu vontade de falar: um não, eu tenho treze. Sabe, comecei a procriar cedo e gostei demais, tanto da parte de fazer, quanto da parte de fazer também. Fazer é bom, sou viciada, confesso! Não me puna, não me culpe, quero ir para o céu – mas tenho um filho para criar, lembra?

- Sim, um filho lindo que está me esperando em casa.

Despedimos-nos com a promessa de que o final de semana seguinte seria especial. 

Cheguei em casa pulando de alegria e logo fui contar à Lipe a novidade:

- Papai, logo, logo, estará aqui com você...

Ele não entendeu patavina, mas deu-me o beijo costumeiro e tão agradável de “seja bem-vinda em casa, mamãe”.

A semana passou e ele não me ligou para confirmar a hora do encontro. Para ser honesta com você, nem o local, tampouco. A segunda semana passou... a terceira semana passou... estou na sexta semana de espera, mas ainda não sei se devo ou não desistir.

Será que o moço feio, embora simpático, desistiu de mim porque eu tenho um filho?

Ah! Que bobagem minha pensar isso. Vivemos em um mundo globalizado no qual as mulheres têm os mesmos direitos que os homens. Preconceito é tão fora de moda! 

Ele deve ter perdido o celular ou a agenda e está desesperado, pois queria ocupar a vaga de pai de Felipe, tanto quanto eu queria que ele ocupasse.

Acho que vou esperar só mais uma semana.

Se ele não aparecer, rodo no meu salto e penso: Bom, cargo vago? De volta à caça!


19 de nov de 2010

Confissão


Tenho que confessar, eu preciso confessar!

Eu não sou organizada, sabe.

No meu primeiro emprego eu trabalhava no departamento de estoque de uma loja de calçados femininos.

Tenho que confessar que cometo o pecado da luxúria, sempre, também.

Eu estava lá no meio daquele monte de sapatos, cada um mais lindo que o outro. Não resistia e passava o dia experimentando. Tinha um espelho lá, o que era ótimo, porque eu podia ver como o sapato ficava no meu pé. Não via problema nenhum nisso, porque eu não usava. Eu não pegava o sapato, colocava na minha bolsa, saia e usava e depois devolvia. Isso é antiético.

Mas encrencaram, porque, quando os vendedores subiam lá no estoque e pegavam seis caixas de sapato para a cliente experimentar, bem, em algumas dessas caixas os sapatos estava trocados.

Não é que eu não ligo para detalhes. Sou detalhista, quando preciso ser. Quando fui registrar meu filho, prestei muita atenção no detalhe da data de nascimento e no detalhe do nome que ele teria. São detalhes importantes!

Mas prestar atenção em todos os detalhes é muito chato. As pessoas ficam se prendendo nos detalhes e perdem a vida, que é muito grande. 

O bonito da vida é ver ela como um todo, não é?

Acho que o gerente gostava mais dos detestáveis detalhes, porque ele me demitiu da loja só porque alguns sapatos estavam em caixas erradas, acredita?!

Mas aí tenho que confessar que não tenho amor próprio também. 

Ah, não vou ser hipócrita e dizer que se eu me amar o mundo todo vai me amar. Lorota! Eu posso me amar muito e ninguém mais gostar de mim, assim como um monte de gente pode gostar de mim, mesmo que eu não me ame muito.

Eu implorei. Confesso que implorei pelo emprego.

Não porque eu queria ser estoquista pro resto da vida, mas era agradável passar o dia experimentando sapatos. Coisas de mulher, sei lá.

O que isso tem a ver?

Tem a ver que eu estou procurando um pai para o meu filho seguindo meus critérios, que são: total falta de organização e planejamento, desapego aos detalhes e falta de amor próprio.
To mesmo pretendendo experimentar alguns, por ai, sem me prender nos detalhes...

Ah, eu fiz uma lista!

Pra ser candidato a pai do meu filho:
- tem que ter dente na boca;
- tem que ter... tem que... tem que ser homem.

Conheci o Johny na balada, sabe.

Era um barzinho de Streep masculino e feminino, mas eu fui com a intenção de encontrar um homem sério para minha vida. 

Vi que foi amor à primeira vista quando ele olhou pra mim e piscou. Senti que fomos feitos um pro outro naquele momento. Era o destino batendo na minha porta, quer dizer, na porta da balada.

Se foi amor a primeira vista e se ele chegou em mim e a gente deu uns beijos, ora, ele era forte candidato para ser pai do Felipe.
Ficamos juntos o tempo todo, conversamos muito, beijamos muito. Ele me chamou pra um lugar mais calmo (motel, né), mas eu queria mostrar que era mulher para casar e disse que não.
Se a gente quer casar com o homem da nossa vida não pode dar na primeira noite. Isso todo mundo sabe. Mulher tem que saber falar não, viu.

Mas aí aconteceu uma coisa muito estranha...

Eu fui no banheiro e quando voltei o Johny estava grudado com outra menina. Parecia que estava fazendo um exame de amígdalas, horrível!

Caramba, que frustração foi aquilo!

Ele seria o pai perfeito para o meu Lipe, entende? Voltei para o banheiro correndo, para chorar. 

Acho que passaram uns quinze minutos, sei lá, mas ai eu me enchi de coragem e fui lá tirar satisfação com o cafajeste.

Cheguei e disse:
- Cargo para pai vago de novo! – ele me olhou fingindo que não estava entendendo nada, aquele cínico.

Rodopiei no meu salto e pensei o seguinte: Bom, cargo vago? De volta à caça!